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23.11.2017

Respeito aos limites: A Trajetória do Pastor Batista Loren Reno, um Defensor do Estado Laico

Autor: Herbert Soares (Mestre em História pela Ufes) – E-mail: herinter@hotmail.com

Texto originalmente publicado no caderno “Pensar”, do jornal A Gazeta, na edição de 18 de novembro de 2017.


 

Importante liderança da Igreja Batista, Loren Marion Reno, nascido na Pensilvânia (EUA) e radicado no Espírito Santo a partir de 1904, enfrentou dissabores na caminhada como missionário batista, o que não impediu que galgasse espaço na sociedade capixaba tornando-se referência na área da educação.

 

Ao lado da esposa Alice Reno, fundou o Colégio Americano Batista de Vitória e organizou a missão batista no Estado. Durante três décadas Loren foi a principal referência da denominação batista no Espírito Santo. Sua morte, em 4 de março de 1935, revela um homem popular e prestigiado. Três dias após seu falecimento, o jornal “Diário da Manhã”, um dos mais importantes da época, exaltou sua figura e a multidão que acompanhou o funeral, além de registrar a presença de autoridades no cortejo fúnebre, como a do Interventor Federal no Estado, João Punaro Bley.

 

Apresentada esta breve introdução, o foco direciona-se as convicções de Loren Reno acerca de algo que ainda causa polêmica: a relação entre religião e política. Em fevereiro de 1916, em artigo publicado no já citado “Diário da Manhã”, o missionário recusou “rebaixar o seu posto” e entrar na disputa política. Dado o seu prestígio, sem dúvida deve ter recebido inúmeros convites para “emprestar” a sua credibilidade aos políticos capixabas, assim como ocorre nos dias de hoje com a peregrinação que políticos fazem nos mais diversos templos de igrejas evangélicas do país, principalmente em período próximo a eleição.

 

No curto artigo, percebe-se ao menos quatro pontos importantes destacados por Loren Reno. Logo no início, o autor registra a recusa de convites recebidos para participar ativamente da política ou usar sua influência entre os batistas para favorecer algum candidato. Adiante, opina pela separação entre política e religião, o primeiro ponto de destaque do texto: “Do campo espiritual para o terreno da política, é natural que não deva descer. Cada qual em seu lugar”.

 

Prosseguindo, não aceita o papel de orientador político dos batistas capixabas: “Confio que os batistas deste Estado são bem suficientes para exercerem os direitos de cidadãos e gozarem dos privilégios lógicos do voto sem que um estrangeiro como eu lhes vá recomendar que votem neste ou naquele”. Daí, resulta o segundo ponto a ser salientado: líder religioso não deve impor candidato aos fiéis.

 

No terceiro ponto o autor lembra que as opiniões são diversas e devem ser respeitadas: “Cada qual tem sua própria opinião e votará de acordo com esta; alguns com o governo, outros com a oposição”. Ressalte-se que, em nenhum momento, o principal líder batista do Estado no período se coloca como dono da verdade. Trata os seus com humildade e defende o direito de escolha de cada um.

 

No quarto ponto que merece ênfase, Loren Reno garante que os batistas respeitam as leis e são “genuinamente democráticos”. Sua conclusão é uma defesa da democracia: “A decisão da maioria deve ser respeitada”.

 

Um século se passou e as opiniões de Loren Reno continuam válidas, apesar de não serem seguidas por grande parcela da comunidade evangélica, afinal, basta ligar a TV ou acessar a internet para observar que a religião está cada vez mais próxima da política. Se tal conduta fará bem a imagem dos evangélicos como um todo, só o tempo dirá.

 

Nesse sentido, as palavras de Loren Reno servem como alerta. Sem dúvida, a prudência, a humildade e o respeito a democracia, características defendidas pelo missionário norte-americano, permanecem atuais e merecem consideração.

 

Por fim, vale frisar que as marcas do líder batista na sociedade capixaba perduram, mesmo passados 82 anos de sua morte. Loren Reno é nome de rua na capital do Estado e já foi tema de documentário produzido pela Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Em 1982, ainda em reconhecimento por sua atuação, a Assembleia Legislativa instituiu a comenda “Loren Reno”, que é “conferida a todos os brasileiros ou estrangeiros, que se destacarem em atividade educacionais, parlamentares, industriais, empresariais e artísticas”.